Quando a margem financeira desce e as comissões sobem
Falcão – Intermediários de Crédito 11 min de leitura Publicado em 06/08/2026
Editorial Falcão IC

A banca portuguesa continua rentável, mas a descida da margem financeira está a alterar a composição das receitas. As comissões crescem, o crédito aumenta e muitos consumidores continuam pouco preparados para avaliar custos e risco.

Os bancos portugueses continuam a apresentar resultados elevados, mas o modo como esses resultados são gerados está a mudar. A descida das taxas reduziu parte da vantagem obtida com a margem financeira, enquanto as comissões e o crescimento do negócio ganham importância. Ao mesmo tempo, um inquérito da CMVM mostra que uma parte relevante da população universitária revela aversão ao risco financeiro e fragilidades de literacia. As duas realidades não provam uma relação entre si, mas ajudam a perceber por que razão comparar custos, compreender produtos e distinguir prudência de desconhecimento se tornou ainda mais importante.

Os bancos continuam lucrativos, mas a origem das receitas está a mudar

A discussão sobre os resultados da banca costuma ficar presa a uma pergunta simples: os lucros subiram ou desceram? Essa leitura é insuficiente. Dois bancos podem apresentar resultados semelhantes e chegar a eles por caminhos muito diferentes. Um pode beneficiar sobretudo da margem financeira; outro pode compensar a redução dessa margem com mais crédito, mais comissões, maior atividade de seguros ou resultados financeiros.

Em 2025, o sistema bancário português manteve uma rendibilidade elevada, mas o Banco de Portugal identificou a margem financeira como o principal contributo para a redução da rendibilidade. Em percentagem do ativo médio, a margem financeira desceu de 2,69% para 2,39%. As comissões líquidas mantiveram um peso muito menor, passando de 0,73% para 0,72% do ativo médio, embora o seu contributo para a variação do resultado tenha sido positivo.

Quando os valores são observados em montante, as séries do Banco de Portugal mostram uma queda da margem financeira e um aumento das comissões. Isto não significa que todos os bancos tenham evoluído da mesma forma, nem que todas as comissões cobradas aos clientes tenham aumentado. Significa que, no conjunto do setor, as receitas por serviços ganharam importância relativa num período em que o rendimento líquido de juros perdeu força.

O que é a margem financeira e por que razão está a diminuir

A margem financeira corresponde, de forma simplificada, à diferença entre os juros que o banco recebe e os juros que paga. Do lado das receitas estão, entre outros, os juros cobrados em empréstimos e os rendimentos obtidos em determinados ativos. Do lado dos custos estão os juros pagos em depósitos e noutras fontes de financiamento.

Durante a subida rápida das taxas de juro, muitos créditos à habitação de taxa variável foram revistos para valores superiores. Os juros recebidos pelos bancos aumentaram depressa, enquanto a remuneração de muitos depósitos demorou mais tempo a acompanhar esse movimento. Essa diferença favoreceu a margem financeira.

Com a descida das taxas diretoras e dos indexantes, o movimento inverte-se. O Banco de Portugal explica que, em 2025, as taxas implícitas nas operações ativas diminuíram de 4,6% para 3,9%, enquanto as taxas das operações passivas passaram de 2,1% para 1,6%. Os juros recebidos desceram mais do que os juros pagos. A predominância de empréstimos a taxa variável em Portugal torna este ajustamento particularmente visível.

Para os clientes com crédito indexado à Euribor, esta descida pode traduzir-se numa prestação mais baixa quando ocorre a revisão contratual. Para o banco, a mesma revisão reduz o rendimento de juros associado a esse contrato. O benefício do cliente e a compressão da margem do banco podem, portanto, resultar do mesmo movimento das taxas.

As comissões estão a compensar a quebra?

Em parte, mas não integralmente. As comissões são uma fonte de receita diferente dos juros. Podem estar associadas a contas, cartões, transferências, gestão de património, fundos, seguros, operações de crédito ou outros serviços. Nem todas são pagas diretamente pelo mesmo tipo de cliente e nem todas resultam de um aumento de preço: a receita também pode crescer porque existem mais operações, mais clientes ou maior volume de negócio.

Nos resultados do primeiro semestre de 2026 dos grandes bancos já divulgados, a receita de comissões cresceu de forma generalizada, enquanto a margem financeira caiu na maioria das instituições analisadas. O crescimento do crédito e da atividade comercial ajudou a manter os lucros agregados próximos dos do período homólogo. Ainda assim, uma subida das comissões não tem a mesma escala da margem financeira, que continua a ser estruturalmente mais relevante para a banca portuguesa.

Por isso, seria excessivo concluir que os bancos estão simplesmente a substituir juros por comissões. O que está a acontecer é mais amplo: diversificação das receitas, crescimento do volume de crédito, reforço da venda de serviços, controlo de custos e, em alguns casos, utilização de outras rubricas de resultados.

Uma subida da receita de comissões não significa que cada cliente vai pagar mais

Há uma distinção essencial entre a receita agregada do setor e o preçário aplicado a uma pessoa concreta. A receita de comissões pode aumentar porque subiu o número de operações ou o volume de ativos sob gestão, mesmo sem alteração do preço unitário. Também pode crescer através de serviços que não estão ligados à conta à ordem ou ao crédito à habitação.

O contrário também é verdadeiro: um cliente pode passar a pagar mais pela sua relação bancária mesmo que a receita total de comissões de uma instituição não aumente. Basta perder uma isenção, deixar de cumprir uma condição de bonificação, substituir um pacote de serviços ou manter produtos que já não utiliza.

A leitura útil não é, portanto, “as comissões subiram, logo o meu banco vai cobrar-me mais”. A pergunta correta é: quanto custa hoje o conjunto de produtos que mantenho e que parte desse custo depende de condições que podem mudar?

No crédito à habitação, o spread é apenas uma parte da conta

Quando a concorrência pelo crédito aumenta, o spread tende a receber grande destaque comercial. Mas uma proposta de crédito pode combinar um spread mais baixo com custos de conta, cartões, seguros ou outros produtos associados. A bonificação pode depender da manutenção desses produtos durante uma parte significativa do contrato.

Isto não significa que os produtos associados sejam sempre desvantajosos. Um seguro contratado através do banco pode ser competitivo; uma conta pode incluir serviços efetivamente utilizados; um cartão pode ter isenção. O problema surge quando o cliente compara apenas a diferença de spread e trata os restantes encargos como detalhes sem peso.

A FINE permite observar a TAEG, o MTIC, as comissões, os seguros conhecidos e as condições necessárias para obter a taxa apresentada. Porém, até estes indicadores devem ser lidos no contexto correto. Num contrato de taxa variável ou mista, o custo futuro depende de pressupostos. Alguns seguros também podem variar com a idade, o capital em dívida e a atualização do prémio.

Uma diferença pequena na prestação inicial pode ser anulada por encargos recorrentes. Da mesma forma, uma proposta com mais produtos não é automaticamente pior se o custo total for inferior e os produtos forem adequados. É a comparação completa que permite distinguir preço, utilidade e dependência comercial.

O aumento do crédito também ajuda a sustentar os resultados

Quando a margem obtida por cada euro de crédito diminui, o volume pode ganhar importância. Os dados divulgados para o primeiro semestre de 2026 mostram crescimento do crédito nos principais bancos analisados. Mais contratos e maior carteira podem compensar parcialmente uma margem unitária menor.

Para quem procura financiamento, isto pode criar mais concorrência e campanhas de captação. Mas a existência de mais oferta não elimina os critérios de risco. A instituição continua a avaliar rendimento, estabilidade profissional, responsabilidades, idade, prazo, garantia e capacidade para suportar a prestação.

Também não significa que o crédito mais fácil de contratar seja o mais adequado. Em períodos de maior competição comercial, o consumidor deve ser particularmente cuidadoso com propostas construídas em torno da prestação inicial, de benefícios temporários ou de condições que exigem a manutenção prolongada de vários produtos.

Os 42,3% de aversão ao risco não significam falta de coragem

O VI Inquérito Online da CMVM, realizado entre 2 de outubro e 20 de novembro de 2025, reuniu 2.319 respostas válidas, maioritariamente da população universitária. Cerca de 42,3% dos respondentes manifestaram alguma aversão ao risco financeiro e 19,2% alguma tolerância. Estes números descrevem atitudes perante a incerteza; não permitem concluir que quase metade dos universitários toma más decisões ou evita qualquer produto financeiro.

Aversão ao risco pode ser prudência. Uma pessoa que prefere preservar capital, evita produtos que não compreende ou escolhe uma prestação previsível pode estar a tomar uma decisão coerente com a sua situação. O problema não é desejar segurança. É decidir com base numa perceção incompleta do risco.

Um depósito com capital protegido pode ter risco reduzido de perda nominal e, ainda assim, perder poder de compra para a inflação. Um crédito de taxa fixa pode reduzir a incerteza da prestação, mas ter um custo inicial superior. Um crédito de taxa variável pode começar mais barato e ficar exposto à evolução do indexante. Não existe uma única escolha correta fora do contexto da pessoa.

Literacia financeira não serve para tornar todos mais propensos ao risco

O mesmo inquérito identificou fragilidades nos conhecimentos financeiros. Uma parte relevante dos participantes reconheceu conhecer pouco ou nada sobre mercados e produtos financeiros, e muitos responderam corretamente a menos de metade das questões colocadas.

O objetivo da literacia financeira não deve ser convencer alguém a investir mais, contratar mais produtos ou aceitar maior incerteza. Deve permitir reconhecer custos, distinguir risco de volatilidade, compreender perdas possíveis, identificar condições contratuais e recusar aquilo que não faz sentido.

O estudo mostra também uma associação entre melhores conhecimentos financeiros percecionados e maior predisposição para assumir risco. Essa relação deve ser lida com cuidado. Saber mais pode permitir aceitar riscos de forma informada, mas também pode dar confiança excessiva. Conhecimento não elimina perdas nem transforma um produto inadequado num produto seguro.

O risco financeiro não existe apenas nos investimentos

É comum associar risco financeiro a ações, fundos ou criptoativos. No orçamento familiar, porém, uma parte importante do risco nasce em decisões muito mais correntes: escolher uma prestação demasiado próxima do limite, depender de rendimentos variáveis, esgotar a poupança na compra de casa ou aceitar produtos associados sem calcular o custo futuro.

No crédito à habitação, o risco pode estar na revisão da Euribor, na perda de uma bonificação, no aumento dos seguros, numa redução do rendimento ou numa despesa inesperada. Uma pessoa pode rejeitar qualquer investimento por receio de perder dinheiro e, ao mesmo tempo, aceitar um compromisso de crédito pouco flexível durante décadas.

Por isso, aversão ao risco e proteção financeira não são sinónimos. A verdadeira proteção começa por identificar onde o risco está, qual a dimensão possível do impacto e que margem existe para o absorver.

O que deve ser comparado numa relação bancária

Uma comparação útil deve separar custos do crédito, custos dos produtos associados e condições de manutenção. No crédito à habitação, é necessário observar a TAN, a TAEG, o MTIC, a prestação, o prazo, os seguros, as comissões iniciais e recorrentes, a conta exigida, os cartões e as consequências de deixar de cumprir uma bonificação.

Também importa perceber o que pode mudar. Um custo apresentado hoje como gratuito pode depender da domiciliação do ordenado ou de um nível mínimo de utilização. Um prémio de seguro pode evoluir. Uma taxa variável pode ser revista. Um benefício comercial pode ter duração limitada.

A decisão não deve procurar apenas o valor mais baixo numa folha. Deve procurar uma estrutura de custos compreensível, compatível com o orçamento e suficientemente robusta para continuar suportável quando alguma condição deixar de ser ideal.

Menos margem para os bancos não significa automaticamente menor custo para as famílias

A descida das taxas pode aliviar prestações e reduzir o rendimento de juros da banca. Mas o custo total da relação bancária depende de muitas outras componentes. O banco pode procurar crescer em volume, reforçar serviços ou aumentar a importância comercial de produtos que geram comissões. O cliente pode beneficiar de maior concorrência e, simultaneamente, enfrentar propostas mais complexas.

Não há base para afirmar que a redução da margem financeira vai provocar uma subida geral das comissões cobradas a todos os clientes. Há, contudo, uma razão clara para vigiar a conta completa: quando uma fonte de receita perde força, as restantes tornam-se mais relevantes para o modelo de negócio.

A conclusão não é desconfiar de qualquer comissão nem evitar qualquer risco. É recusar decisões construídas sobre um único número. Num mercado em que os bancos reorganizam receitas e muitos consumidores ainda têm dificuldade em avaliar produtos financeiros, clareza deixou de ser apenas uma vantagem. Passou a ser uma forma de proteção.

A descida da margem financeira significa que os bancos vão aumentar as comissões?

Não necessariamente. A queda da margem financeira aumenta a importância de outras receitas, mas as comissões podem crescer por subida de preços, maior volume de operações ou maior utilização de serviços. O impacto deve ser verificado no preçário e nos produtos concretos de cada cliente.

O spread mais baixo identifica sempre o crédito à habitação mais barato?

Não. O custo depende também da TAEG, do MTIC, do prazo, dos seguros, das comissões, da conta e dos produtos necessários para manter a bonificação. O spread é apenas uma componente da proposta.

Ser avesso ao risco financeiro é negativo?

Não. A aversão ao risco pode representar prudência e preferência por resultados mais previsíveis. Torna-se problemática quando a decisão é baseada em desconhecimento, numa perceção errada dos riscos ou na ausência de comparação entre alternativas.

Banco de Portugal: Banco de Portugal atualiza séries longas do setor bancário português

Em 2025, a margem financeira do setor bancário diminuiu em montante, enquanto as comissões aumentaram, embora continuassem bastante abaixo da margem financeira.

Banco de Portugal: Relatório de Estabilidade Financeira — maio de 2026

A margem financeira foi o principal contributo para a redução da rendibilidade em 2025; as taxas implícitas das operações ativas diminuíram mais do que as das operações passivas.

CMVM: Resultados do Inquérito realizado pela CMVM/Universidades 2025

O inquérito reuniu 2.319 respostas válidas e avaliou atitudes perante o risco geral, o risco financeiro e as perdas, bem como conhecimentos financeiros.

RTP: Inquérito da CMVM a universitários encontra fragilidades em literacia financeira

Síntese pública dos resultados do inquérito da CMVM, incluindo diferenças etárias, de género e associação entre conhecimentos percecionados e tolerância ao risco.